quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Enganam-se aqueles que se preocupam com a suposição de que, se forem simples, os outros poderão considerá-los como uma pessoa simplória. Na verdade, é exatamente o oposto: pessoas claras, amorosas, compreensíveis e diretas são as mais simples. 
Se um dia uma pessoa me falasse algo incomum, me ajudaria a seguir em frente. Mas são rançosos, bolorentos; não há emoção. Olhos, ouvidos, pernas, vozes.. mais nada. Congelam-se dentro de si mesmos, se enganam, fingindo que estão vivos. 

Quando servi o exército eu me tornei especialista em bombas. Sei fabricar qualquer tipo de bomba portátil, muito usada por terroristas. A bomba que eu estava fazendo tinha que ter efeito fulminante, para que a vítima nada sofresse. E antes da explosão, era necessário que fosse emitido um feixe de luz radiante que fizesse a vítima perceber a iminência da explosão. A pessoa que eu queria matar era o meu filho João. Minha mulher Jane estava grávida quando fui enviado ao exterior com um contingente do exército a serviço das nações unidas. Fiquei ausente cerca de dois anos. Escrevia constantemente para Jane e ela respondia. Quando o meu filho nasceu e recebeu o nome de João, as cartas de Jane ficaram bem estranhas. Ela dizia que precisava falar comigo uma coisa muito séria, mas não sabia como. Eu respondia impaciente para ela dizer de qualquer maneira, mas ela persistia na falta de clareza, que cada vez piorava mais. Afinal, Jane deixou de responder minhas cartas. Quando voltei da missão da ONU, corri para casa assim que desembarquei no aeroporto. Jane abriu a porta para mim. Seu aspecto me surpreendeu. Estava envelhecida, pálida, parecia doente. “Onde está o João?”, perguntei. Jane começou a chorar convulsivamente, apontando a porta do quarto onde ele estava. Entrei no quarto, seguido de Jane. João estava deitado no berço, um menino lindo, que a meu ver deu um sorriso. Peguei-o no colo. Então, tive uma surpresa que me deixou atônito. João só tinha uma perna e um braço, eram os únicos membros que possuía. Jane estendeu-me um papel, todo amassado, uma receita médica onde estava escrito: esta criança sofre de focomelia, uma anomalia congênita que impede a formação de braços e pernas. Jane cuidava do João com o maior cuidado e com grande carinho. Mas ela definhava cada vez mais e morreu quando João tinha seis anos. Eu dei baixa no exército para poder cuidar do meu filho. Quando eu perguntava se ele queria alguma coisa, ele dizia “eu quero ir para a guerra”. Sua deficiência física se agravava com a idade. Ele tinha 15 anos, mas não podia andar, estava impossibilitado de exercer as mínimas atividades físicas. “eu quero ir para a guerra, papai”, ele pediu mais uma vez. Então decidi que ele iria à guerra. Foi quando preparei a bomba. Com a bomba na mão eu disse: “meu filho, você foi convocado para ir à guerra”. “Obrigado, meu pai querido, eu te amo muito”. Eu o amava mais ainda. Coloquei a bomba na sua mão. “Essa bomba vai explodir. É a guerra”, eu disse. “É a guerra”, ele repetiu feliz. Saí do quarto onde estava. Pouco depois vi o clarão. João também viu esse clarão, feliz, antes da bomba explodir, matando-o. Eu amava o meu filho.

(Rubem Fonseca)
Pois minha imaginação não tem estrada.. Eu não gosto mesmo da estrada. Gosto do desvio; e do desver.
(Manoel de Barros)
Do fundo do sepulcro os ossos falam. O verbo é a imagem das suas tibiezas: e os ossos falam mais da vida que da morte: eis os ossos de reis e de rainhas, de donos da terra e de escravos. Os ossos dos primeiros e dos últimos são ossos iguais a ossos. A eloquência dos ossos, silenciosa, traz mais verdades que provérbios e salmos. Eles falam, e nos contam segredos em parábolas: “quando ossos fecundam outros ossos, quando ossos enterram outros ossos e não vêem o seu sangue em outros ossos. Quando ossos comem carne e deixam ossos a outros ossos, quando ossos matam ossos, é tempo de cegar a carne, e ouvir o silêncio dos vossos próprios ossos.
(Daniel Mazza)

domingo, 6 de outubro de 2013

Ah.. que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de fio de ovos e uma garrafa de água.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê ? Até se me dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre pelo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Pelo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, vamos! que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me desequilibro logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?...
Deixa-te de ilusões,
Mário de Sá-Carneiro! Bom edredom, bom fogo,
E não penses no resto. Já é bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Com a breca! levem-me para enfermaria!
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai pagará..

Justo. Um quarto de hospital, higiênico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluco em Paris fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica.
O menino dorme.
Tudo o mais acabou.

(Mário de Sá-Carneiro)

quinta-feira, 25 de abril de 2013